"Ego e Arquétipo" de Edward F. Edinger
A descoberta da psique arquetípica e a gênese do símbolo
Edinger começa lembrando que a primeira grande descoberta de Jung foi a psique arquetípica, que chamamos de inconsciente coletivo. É ali que os arquétipos se alojam. Mas antes de definir arquétipo, o expositor nos convida a voltar ao homem das cavernas.
Imagine um homem primitivo, carente de símbolos e de processos intelectivos. Ele não conseguia decifrar a natureza, mas vivia nela. A natureza era misteriosa, encantada e terrível. Quando a fome apertava, ele precisava caçar. Confeccionava suas lanças, afiava pedras e saía em busca de alimento. Via os animais, sentia o terror, o grito, a força agressiva do combate. Muitas vezes voltava ferido, rasgado. Mas, quando obtinha uma vitória e matava o animal, trazia a carcaça para a caverna e alimentava sua tribo.
Então, algo extraordinário acontecia. Ele pegava o sangue do animal ainda quente em seu peito e, aproximando-se da parede de pedra, fazia as primeiras gravuras rupestres. Desenhava o boi, o touro ou o lobo que matara. Depois, parava e contemplava aquele desenho. O expositor explica que aquele ato tinha um poder imenso. O homem não sabia, mas estava criando os primeiros caracteres que, mais tarde, seriam transliterados em letras, palavras e livros. Ele não apenas ilustrava sua experiência dolorosa e impactante – ele estava fabricando um corpo gramatical, um sistema de representação que seria usado por povos futuros.
Sentindo ainda o calor da vibração do sangue em suas veias, ele conseguia caracterizar a energia do combate, da força, das necessidades do mundo. Quando esse processo se tornou habitual, quase ritualístico, algo se imprimiu na consciência daquele homem e de seu povo. Os hábitos começaram a ser modelados nos tecidos psíquicos, engendrando emoções e sentimentos associados à experiência da caça. Sempre que a barriga doía, o coração já disparava. As células já sabiam que era hora de sair para o confronto.
Foi assim que nasceram as primeiras caracterizações da ideia de força e de esperança – para aqueles que ficavam na caverna aguardando o alimento chegar. As ideias do mundo instalam-se a partir de hábitos formados ao longo do tempo. Aquele homem primitivo, carecido, foi ganhando complexidade e especificidade em novos hábitos. Instalou-se nele uma consciência mítica. O mundo não era explicado, mas era visto. Ele sentia encantamento e assombramento diante de um mundo fantasmagórico, terrível e assombroso, mas também encantador.
A consciência mítica permitiu ao homem começar a nomear a natureza. Ele se tornou um "nador". Apontava para os fenômenos naturais e criava deuses neles – criava sua própria mitologia. Passou a fazer ações miméticas, imitações da natureza. Incorporava o fogo, rugia como um animal, aprendia que gritar aumentava sua carga de calor corporal e lhe dava mais força. O homem transliterava a natureza para sua linguagem conforme vivia. Essa complexidade não só mitificou o mundo, mas também o ritualizou. Ele começou a criar fenômenos conectados com o cosmos. Afinal, aquele que pintava o boi na caverna estava criando um cosmos pessoal.
Como diria mais tarde Jung (1964/1991), "os deuses são potências psíquicas que, se forem esquecidas, se tornam doenças". Para Joseph Campbell, são pistas de necessidades espirituais da humanidade projetadas na natureza.
O expositor cita Edinger: quando um paciente encontra um mito que caracteriza seu drama pessoal, ele se conecta com aquele mito – um "mito pessoal" – e aquilo lhe traz sentido de vida, humaniza-o. O contato mitológico, o contato com o que está na natureza, humaniza a pessoa e a conecta com o todo.
O arquétipo: vazio impenetrável, porém representável
Chegamos ao cerne: o arquétipo é vazio. É algo impenetrável, mas representável. O expositor usa a imagem de uma luz forte que não podemos olhar diretamente; precisamos de uma imagem para que essa força seja condensada dentro de uma forma veicular. Essa representação é a imagem arquetípica. Ninguém fala do arquétipo puro, ninguém o toca. Ele é inalcançável. O que temos são imagens que o representam, e essas imagens vão sendo atualizadas ao longo do tempo.
A psique arquetípica – o inconsciente coletivo – é o lar dos arquétipos. E os arquétipos são senhores de duas faces. Podem funcionar de forma saudável, dinâmica e viva, ou podem se tornar disfuncionais e patológicos. Todos nós criamos lentes para significar as coisas do mundo. Se falamos do pai, por exemplo, suas representações são múltiplas. Um pai com cinco filhos será visto de cinco maneiras diferentes. A ideia do pai – assim como mãe, velho, jovem – é um processo dinâmico que produz encantamento na experiência de quem a vivencia. O arquétipo não é estático. Não é apenas uma figura específica, como "o pai de casa". Pode ser uma ambiência. Se entro em uma escola, onde está o "pai" daquela escola? Talvez na sala do diretor, na estrutura criada.
O expositor avança: Edinger fala de igrejas e catedrais como estruturas que coordenam e contabilizam o fluxo da libido de uma cidade, projetando o sagrado das pessoas no símbolo da cruz. Portanto, expandir a ideia de arquétipo para além de uma figura é essencial: arquétipos são processos ligados a movimentos e ambiências.
Muitos psicólogos dizem que a função do pai é cortar a relação do filho com a mãe, fazer a separação. De onde vem essa ideia? Das mitologias. Cronos, o pai sombrio, castra Urano – corta a eternidade, cria o tempo. O pai bíblico separa a terra do céu. Nas mitologias, o pai está associado à separação, ao corte e à estruturação, pois é assim que as coisas são discriminadas e percebidas como únicas. Isso gera a diferenciação do conteúdo material.
E as mitologias, no fundo, estão buscando a origem. O expositor faz um paralelo interessante: a ideia mitológica de que o Sol é o pai da Terra – presente na Tábua de Esmeralda, no hermetismo – encontra eco na ciência geofísica. Há cerca de 4,6 bilhões de anos, a nebulosa solar formou o sistema. O Sol jovem cresceu, aqueceu e criou o distanciamento da Terra, tornando a vida possível. Se não fosse o Sol, não haveria vida na Terra. A distância é perfeita. Daqui a milhões de anos, o Sol crescerá e engolirá a Terra. Do ponto de vista mitológico, o Sol realmente criou a Terra – é seu pai.
Mas o expositor pondera: não podemos penetrar na natureza do inconsciente. Lá é vazio. Se tentarmos, nos perderemos. Todos nós somos vazios. Nossas pupilas são buracos negros no centro dos olhos. Todos temos esse ponto vazio na alma, nesse sentido mundano.
O Self como centro unificador e a dinâmica do ego
Jung não apenas descobriu o inconsciente coletivo, mas também um princípio estruturador e organizador que unifica os conteúdos arquetípicos: o Si-mesmo (Self) . O expositor desenha mentalmente um quadro: o inconsciente coletivo como um grande espaço, e dentro dele os arquétipos – luz e sombra, jovem e velho – sempre em pares complementares. Esses arquétipos têm diferentes representações que são atualizadas pelas eras. Cada "espírito do tempo" atualiza essas imagens. Uma mulher dos anos 1970 é diferente de uma mulher de hoje. Um homem de 2020 é diferente de seu avô aos 14 anos, que já trabalhava na roça. Hoje temos necessidades mediáticas, virtuais. Queremos nos virtualizar para nos conectar com o reino mental. Os antigos eram mais manuais, orgânicos. Por isso, quando vemos um velho carpinteiro ou lenhador suando, sentimos encanto – estamos carecidos de experiências orgânicas.
O Self é o centro unificador e organizador total da psique. Representa o todo psicológico. Projetado no homem, corresponde à divindade empírica, ao Deus interior. O expositor imagina o Self no centro e todos os outros arquétipos conectados a ele. Cada arquétipo contém uma porção do Self, porque a psique é um grande amálgama – tudo está conectado. Quem distribui o processo energético psicológico é o Self. Ele é o "inconsciente vivo", que se esconde nas sombras mas se reflete nos olhos da carne, no ego.
O expositor dá um exemplo clássico: imagine alguém com enorme ênfase no arquétipo do velho trabalhador. É a pessoa que só trabalha, fins de semana, feriados, não descansa. A ideia do prazer, do descanso, torna-se sombria. Quando essa pessoa vê alguém deitado numa rede, sente raiva, chama de vagabundo. O Self acompanha esse processo silenciosamente. Se a libido fica excessivamente concentrada no trabalho, o Self pode conduzir a energia para engendrar uma doença – fazer com que a pessoa não consiga mais trabalhar e precise ficar deitada, ativando à força o polo do descanso. O Self se encarrega de trazer balanceamento psicológico. Todas as áreas da vida precisam estar lubrificadas pela libido.
O nascimento do ego e a inflação
O nascimento do ego – do "eu" – ocorre a partir das pressões iniciais da vida. As pressões conduzem a energia para dentro, favorecendo o surgimento de um processo ligado ao eu, que será o primeiro complexo a ser constelado. A natureza quer nomear o homem, assim como o homem nomeia a natureza. Você nasce com um nome, uma idade, é numerado. Sua vida será uma série de rituais – cada aniversário enfatiza esse eu. A partir dessa identidade, você começa a organizar as coisas da vida, a dizer o que quer e o que não quer, a separar e a reunir. Você se torna vivo a partir dessa identidade.
No início, porém, o ego está muito conectado ao Self. Há uma identificação com o Self, e sempre que isso ocorre, há inflação. A inflação é a identificação com o Self, com essa divindade empírica. É o caso da criança que sai da vida intrauterina, desse pleroma, e traz consigo resíduos de eternidade. A criança é o Deus ou a deusa da casa. Tudo é a criança: ela mais o cabelo do primo que puxa, ela mais o brinquedo que perde, ela mais a comida, a mãe, o seio, o leite. A criança é tudo. Esse "ser tudo" não funciona na vida material, mas é natural no início. Adultos inflados também existem – pessoas que mantêm essa falsa divinização, esse crescimento além dos limites.
A individuação não é um resultado a ser alcançado aos 40 anos. É todo o processo de tomada de consciência e de pontuação da diferença no mundo – sua diferença, seu diferencial. É autoconscientizar-se de si, de seus conteúdos inconscientes, tentando uma forma integrativa. A inflação faz parte desse processo.
O expositor desenha a psique infantil como um círculo (o Self) dentro do qual o ego nasce, completamente identificado. Com o tempo, o ego vai se diferenciando do Self, mas mantém um eixo com ele. Esse eixo é um vínculo vital, conservado até o fim da vida. Jung utilizava mandalas para ver o estágio do seu Self. Ele dizia: "Enquanto o meu ego é um complexo no meio de outros complexos da psique, o meu Self é o eu do meu todo psíquico". O ego está apenas em uma parte, no centro da ilha da consciência. Os conteúdos que chegam a essa ilha vêm do inconsciente. Alguns aguardam o tempo certo para serem manuseados.
Neumann, um seguidor de Jung, descreveu o estado psíquico original anterior ao nascimento da consciência do ego como o uróboros – a serpente que morde a própria cauda, representando o Self primordial, o estado mandálico de totalidade.
O expositor mostra então um estudo com crianças de diferentes idades. Crianças de 2 anos desenham formas abstratas, rabiscos. Aos 5 anos, surgem formas esféricas com braços e pés, ainda dentro de um processo circular. Aos 7 anos, os desenhos ficam mais elaborados. Aos 11 anos, já há cabeça, pescoço, tronco, membros, dedos, cabelo. Cada linha que se diferencia da abstração circular é um traço de impacto da vida, um microtrauma que estrutura a psique. O mesmo ocorre com o planeta Terra, que se diferenciou separando metais pesados de leves para formar seu processo geológico.
Platão, no mito do homem original, diz que o homem primordial era redondo, com costas e lados formando um círculo. Eram terríveis seu poder e sua força. Atacaram os deuses – a inflação – e os deuses tiveram que pôr freios nessa insolência. Heráclito também é citado: "O sol não ultrapassará suas medidas; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o descobrirão". Até o sol tem limites. A inflação é crescer além desses limites.
Alienação, queda e o ciclo psíquico
No estado de inflação, o ego sente-se o maioral. Mas então surge o estranhamento, o primeiro sinal de uma futura queda. O ego começa a refletir: "Como assim eu não tenho todas as verdades? Como assim não posso estacionar aqui?" As pessoas e a sociedade impõem cortes: "Volte para o final da fila", "Tire o carro daí". Esse estranhamento engendra a queda. Quem estava lá em cima despenca e entra no estado de alienação.
Na alienação, o ego se sente indigno de pisar na terra. Perdeu o vínculo de missão, de propósito. A vida perde o brilho. A pessoa se tranca no quarto, no escuro, ouvindo música triste. Há graus de alienação, assim como há graus de inflação – a psique é assimétrica, não há receita de bolo. Para sair da alienação, é preciso autoaceitação. O ego precisa se autoaceitar, o que engendra uma nova subida. Quando se começa a perceber esses ciclos, sobe-se menos, e adentra-se de fato o processo de individuação. A inflação e a alienação fazem parte dos ciclos da vida psíquica.
O expositor lembra os mitos: Ícaro com as asas de cera, que se aproxima do sol e cai. Tântalo, filho de Zeus, que jantava com os deuses, roubou a ambrosia e foi atirado num abismo onde a água e os frutos sempre fugiam de seu alcance. No início, tudo; depois, nada.
O valor perdido, o eixo ego-Self e a função do símbolo
O expositor reforça: no processo de individuação, temos o que Edinger chama de valor perdido. Esse valor é a imagem de Deus, uma entidade interior. Jung diz que o homem é imagem de Deus (como na Bíblia), mas uma luz menor, mais condensada. O mundo é um fenômeno psíquico. A saúde psíquica é a integridade do eixo ego-Self. A alienação dispersa esse eixo e prejudica a saúde.
Um dos pontos altos da aula é a discussão sobre símbolo. O símbolo não é um sinal. O sinal é fechado, esgotável (uma marca de roupa diz apenas "esta roupa é dessa empresa"). O símbolo é inesgotável, mescla dois reinos – o conhecido e o desconhecido. O símbolo encanta porque vem do inconsciente. Não criamos símbolos; o inconsciente os cria. Nós nos relacionamos com eles.
A cultura tem a missão de progressão simbólica. Ela pega símbolos do primitivo arcaico e os atualiza. O expositor critica a cultura moderna por muitas vezes ser esvaziada, fornecendo símbolos fracos para processos libidinais fortes. Um símbolo fraco não transforma energia. Um símbolo forte, bem carregado, pode transformar um canal energético descompensado.
Ele dá um exemplo pessoal: após um evento em que se sentiu tomado por uma raiva irracional ao conhecer uma pessoa, percebeu que precisava lidar com sua própria força instintiva. Anos depois, entrou para uma arte marcial coreana, o Hapkido. Ali, encontrou símbolos: o kimono, o tatame, os rituais de faixa, os exercícios, os números em coreano. Toda aquela teatralidade ritualística transformou sua energia. Ele se tornou "um antes e depois da arte marcial". Isso é a ação do símbolo.
Jung dizia que o homem necessita de uma vida simbólica, mas em geral não a tem. Questionava: "Acaso dispõem de um canto em algum lugar de suas casas onde realizam ritos, como na Índia?" Sem a vida simbólica, as pessoas não se libertam do moinho esmagador e banal da existência.
Complexos: a psique estraçalhada
O expositor introduz o conceito de complexo com um exemplo. Um estudante tímido precisa fazer uma apresentação. Ele estuda, mas na hora a garganta fecha, a língua trava, ele vê os olhares dos colegas. Existe um fato (a apresentação) e um filtro (sua interpretação emotiva). Esse elemento nuclear – fato + filtro – começa a abrir imagens associativas, construindo o complexo. O complexo é uma estrutura de grande carga afetiva, um "povoado psíquico" (como diria Murray Stein). Ele tem um núcleo que não está sob controle racional. Quanto mais energia se investe na interpretação dolorosa, mais o complexo cresce.
Os complexos podem estar próximos do ego (mais facilmente integrados) ou distantes. Os complexos distantes passam mais tempo recarregando-se no inconsciente, formando mais associações, tornando-se pesados e teimosos. Eles aguardam o momento certo para serem constelados. Quando se aproximam do ego, podem causar crises. O expositor repete o exemplo do encontro com aquele sujeito que o irritou sem razão aparente: ele perdeu o controle, tremeu, teve que sair do local – uma crise causada por um complexo distante que se constelou.
Complexos são "psique estraçalhada". Não temos nossos complexos; eles nos têm. Eles nos possuem. Um vício, um pensamento repetitivo, uma reação automática – tudo isso são complexos em ação. A libertação da energia aprisionada nos complexos é um dos objetivos do processo de individuação.
A vida simbólica, a religião e o destino da alienação moderna
O expositor dedica uma parte importante à questão religiosa. Ele usa o esquema de Edinger: uma igreja (ou qualquer centro religioso) funciona como um receptáculo onde as pessoas projetam seu "valor perdido", seu Self. Isso impede a inflação individual, pois o sagrado falo lado de fora. Mas o que acontece quando o líder religioso (o papa, o pastor, o guru) diz uma "besteira" que contradiz a fé das pessoas?
Quatro reações são possíveis. Primeira: a pessoa cessa a projeção e cai em alienação – perde o chão, fica desolada. Segunda: a pessoa retira a projeção e deposita toda a energia em si mesma – infla-se, torna-se a própria divindade. Terceira: a pessoa transfere a projeção para outra religião, outro grupo – muda de crença, mas continua buscando um receptáculo externo. Quarta: a pessoa se volta para o próprio interior, integra o princípio daquela fé em si mesma e inicia um processo de individuação.
O expositor comenta que, na modernidade, muitas pessoas pulam de religião em religião ou abandonam completamente o sagrado institucional, mas sentem um vazio imenso. A falta de significado é um sintoma da alienação. Jung dizia que o homem necessita de uma vida simbólica, mas não a tem. Somos escravos da mídia, da moda, de símbolos fracos que não transformam nossa libido. O resultado é o sofrimento – a falta de sentido.
O expositor defende que cada um precisa encontrar seu próprio caminho simbólico. "Deus está aonde o sagrado está. Se para você é sagrado fazer uma caminhada no parque, Deus está ali. Se é sagrado assistir a um bom filme, Deus está ali." Não há uma religião única que sirva a todos. O processo de individuação torna-se, para muitos, o próprio modo de vida.
Cristo como paradigma do ego individuado
No capítulo 5, Edinger toma a imagem de Jesus Cristo como um paradigma do ego individuado. Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem – paradoxal. Em termos psicológicos, isso significa que Cristo é simultaneamente símbolo do Self e do ego ideal. Ele reconcilia os opostos. O expositor menciona uma imagem alquímica clássica: o sangue de Cristo sendo coletado para construir a Pedra Filosofal – o ouro único que resume todos os metais.
Há uma discussão sobre o espírito do tempo e o espírito das profundezas. O espírito do tempo está ligado à cultura, à época, aos símbolos sociais. O espírito das profundezas é aquele que nunca morre, a fonte eterna de símbolos. Jung buscava equilíbrio entre os dois. O sentido supremo da vida não está apenas na adaptação social, mas nesse diálogo com o inconsciente profundo.
O expositor cita um sonho curativo de uma paciente de Edinger (p. 144): um velho que era ao mesmo tempo sacerdote e rabino falava com ela, e ela era tocada no mais profundo do ser. Sentia-se em vias de ficar curada. "Era como se Deus me falasse por meio dele. Eu sabia o porquê. Ele me fazia voltar a entrar em contato com algo que eu conhecera antes de nascer." Esse sonho ilustra a reminiscência platônica – o contato com um conhecimento anterior ao nascimento, que traz cura e sentido.
A alquimia como mapa da individuação
Na parte final, o expositor mergulha na alquimia, que foi para Jung o material empírico que validou sua psicologia. Os alquimistas não trabalhavam apenas com química; eles faziam uma espécie de imaginação ativa no laboratório. A Pedra Filosofal é um rico símbolo do Self.
O expositor explica as três fases clássicas da alquimia. A Nigredo (obra ao negro) é a fase de identificação com a sombra. Corresponde à calcinação, à queima da matéria prima, ao surgimento das cinzas. Psicologicamente, é o confronto com os próprios desejos frustrados, com os conteúdos sombrios. Sonhos com fogo, explosões, casas pegando fogo são comuns nessa fase. A Albedo (obra ao branco) é o clarão, o apoio do inconsciente, o surgimento da luz. A Rubedo (obra ao vermelho) é o ouro vermelho, a concretização do caminho, a integração final.
O expositor também apresenta o modelo dos três princípios alquímicos: Enxofre (espírito, masculino), Mercúrio (alma, duplo, que une) e Sal (corpo, feminino). O corpo obedece à alma, e a alma obedece ao espírito – quando essa hierarquia se rompe, adoecemos. Os metais (chumbo, estanho, ferro, ouro, cobre, mercúrio, prata) são cristalizações dos planetas e, psicologicamente, representam estados de consciência. O objetivo final da alquimia é o casamento sagrado do Rei Sol e da Rainha Lua, a união dos opostos, a obtenção de uma relação consciente com o Self.
O expositor conclui com uma frase hermética: "O Um permanece; o muito muda e passa. A luz celeste brilha eternamente; as sombras da terra se desfazem. A vida, como um domo de vidro multicor, colore o claro esplendor da eternidade."
O que se aprende com esta aula?
Aprende-se que o ser humano não é uma ilha racional isolada, mas um campo de forças arquetípicas que nos constituem desde antes do nascimento. Aprende-se que o ego pode inflar-se de poder, dinheiro ou ideologia, mas que a queda e a alienação são inevitáveis quando rompemos o eixo com o Self – e que a autoaceitação é o único caminho de volta. Aprende-se que os sintomas psicológicos não são inimigos a serem extirpados, mas símbolos degradados que clamam por significado. Aprende-se que a cultura moderna, empobrecida de símbolos genuínos, nos deixou famintos de encantamento, e que cabe a cada um – por meio de sonhos, mitos, arte, rituais pessoais ou mesmo artes marciais – restaurar sua própria vida simbólica.
Aprende-se, sobretudo, que a individuação não é uma fórmula mágica nem um estado de perfeição. É um caminho acidentado, assimétrico, feito de crises e recuperações, mas é o único caminho que nos leva a nos tornarmos quem realmente somos – não o herói que salva o mundo, mas a pessoa única e limitada que ousa manter vivo o diálogo com o seu próprio mistério interior.
Referências
Edinger, E. F. (1992). Ego e arquétipo: Individuação e a função religiosa da psique. Cultrix. (Trabalho original publicado em 1972)
Jung, C. G. (1991). O homem e seus símbolos. Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1964)
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