4- Cabalá Judaica

 Aula 1 

Tema: Introdução aos Caminhos da Sabedoria Oculta


O rabino começou a aula contextualizando o lugar da Cabala dentro do judaísmo. Não se trata de algo separado, mas da dimensão interna e mística da própria Torá, a sua "alma". É o estudo (limud) que busca compreender os mistérios da criação, a natureza de Deus e a jornada da alma humana.


Os Canais do Conhecimento: Mekubalim e Maskilim

Mekubalim (Os Recebedores): Este é o termo para os cabalistas, aqueles que se dedicam à tradição esotérica e mística. A palavra vem da raiz kabal, que significa "receber". Eles são herdeiros de uma tradição oral que, supõe-se, remonta ao Sinai, transmitida de mestre a discípulo.


Maskilim (Os Iluminados/Esclarecidos): O rabino fez uma ponte interessante com a Haskalá (o Iluminismo Judaico do séc. XVIII). Os maskilim eram os intelectuais que buscavam modernizar a vida judaica, integrando-a à cultura europeia. Houve uma tensão histórica entre os mekubalim, vistos como "pré-modernos", e os maskilim, "modernos". A aula sugeriu que hoje podemos buscar uma síntese: usar a razão (herança da Haskalá) para explorar, com seriedade e profundidade, a dimensão mística (herança dos mekubalim), sem contradição.


A Estrutura da Comunidade: Gabai e Cargos

Para falar de espiritualidade, é preciso entender a comunidade que a pratica. O rabino explicou brevemente os cargos:


Gabai: O "administrador" ou "coordenador" da sinagoga. É a pessoa que garante que os serviços fluam, chama as pessoas para a Torá e é o suporte logístico e comunitário da espiritualidade coletiva. Um lembrete de que o misticismo precisa de uma base prática e organizada para se manifestar no mundo.


O Conceito de Alma e a Força Divina Interior

A discussão central foi sobre a natureza da alma (Neshama) e da espiritualidade. O rabino apresentou sua visão, que ele chamou de "Judaísmo Humanista, mas Religioso".


Não se trata de um humanismo secular, mas de uma que reconhece uma Força Divina (Hashem) que é a fonte de tudo.


A chave é entender que essa centelha divina também reside dentro de cada ser humano. Portanto, buscar a Deus é também buscar o que há de mais divino e elevado dentro de nós mesmos e dos outros. A Cabala, nesse sentido, é um mapa para essa jornada interior de autoconhecimento e conexão. É profundamente humanista porque valoriza e busca elevar a experiência humana como veículo do divino.


Contos e Figuras Fundadoras

Rabino Isaac Luria (Ha'ARI): O pai da Cabala moderna. O rabino mencionou sua profunda influência, especialmente os conceitos de Tzimtzum (a "contração" de Deus para criar espaço para o universo) e Tikkun Olam (o "reparo" do mundo), que são fundamentais para entender a responsabilidade humana na obra da criação.


O Homem que recitava Alef, Beit: O rabino contou a história (que me pareceu um conto chassídico) de um homem simples que, não sabendo rezar, ficava do lado de fora da sinagoga recitando apenas o alfabeto: "Alef, Beit, Guimel, Dalet...". Ele pedia a Deus que pegasse essas letras e as organizasse nas preces corretas. A moral é profunda: a intenção (kavanah) e a humildade do coração são mais importantes do que a erudição ou a forma perfeita. É sobre oferecer o que se tem.


O Zohar e a Questão da Autoria

O Zohar (O Livro do Esplendor): A obra fundamental da Cabala, um comentário místico sobre a Torá. A tradição atribui sua autoria a Rabino Shimon bar Yochai (Rashbi), no século II, que teria revelado esses segredos enquanto se escondia numa caverna.


A Polémica Histórica: O rabino foi honesto e apresentou a visão acadêmica moderna, pioneira por Gershom Scholem. Estudos mostram que a linguagem e os conceitos do Zohar são consistentes com o século XIII na Espanha, não com o século II em Israel. A teoria é que foi Rabino Moshe de León quem compilou e escreveu a obra, possivelmente atribuindo-a a Rashbi para dar-lhe maior autoridade.


Coerência e Significado: O rabino enfatizou que, independente da autoria histórica, o Zohar mantém sua enorme importância espiritual. Ele emergiu do seio do povo judeu e falou profundamente à sua alma ao longo de séculos. Seu valor não diminui; sua origem se torna mais complexa e humana.


Menção a Maimônides (Rambam)

Foi feita uma breve ponte com Maimônides, o grande racionalista. Apesar de sua abordagem filosófica e legalista ser diferente da cabalística, ambos os caminhos buscam a mesma verdade: compreender Deus e servir a Ele com integridade. São vias complementares, não opostas.


Conclusão da Aula:

A Cabala não é um sistema de magia, mas um convite a um caminho de profundidade. É sobre encontrar a centelha divina em tudo e em todos, e trabalhar para elevá-las. É uma jornada que exige estudo sério, humildade e, acima de tudo, um coração aberto. O primeiro passo é querer buscar.


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Aula 2

Origem do Zohar e autoria

O Zohar foi publicado no século XIII por Moisés de León, que o atribuiu às tradições do rabino Shimon bar Yochai (século II)

Essa reivindicação de antiguidade é rejeitada pela maioria dos estudiosos modernos, que creem que o próprio De León compôs o texto cabalístico entre 1280 e 1286

Desde o início, acadêmicos como Gershom Scholem analisaram a linguagem do Zohar (dialeto aramaico artificial misturado com erros e termos medievais) para concluir que a obra é medieval


Pesquisadores contemporâneos

Gershom Scholem (1897–1982): considerado o fundador dos estudos acadêmicos da Cabala, Scholem concluiu que Moisés de León foi provavelmente o autor original do Zohar. Ele identificou “erros frequentes na gramática aramaica, traços suspeitos de palavras em árabe e espanhol, e falta de conhecimento da Terra de Israel” no texto, o que sustenta essa hipótese

Moshe Idel (n.1947): historiador e filósofo israelense de misticismo judaico, Idel revisou sistematicamente a história da Cabala, enfocando dimensões míticas, teúrgicas e messiânicas da tradição

 Professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém, ele propõe novas perspectivas sem reduzir a Cabala a categorias engessadas

Boaz Huss (n.1959): professor de Cabala na Universidade Ben-Gurion, Huss é especialista em Cabala contemporânea. Pesquisou a recepção moderna do Zohar e temas atuais, incluindo o interesse contemporâneo e até influências da Cabala no novo-idade. Huss também estudou a obra de Baal HaSulam (Yehuda Ashlag) e a Cabala de natureza “comunista” que Ashlag promoveu


Baal HaSulam (Rabbi Yehuda Ashlag)

Yehuda Ashlag (1885–1954), conhecido como Ba’al HaSulam (“Mestre do Degrau”), foi rabino, cabalista e anarquista nascido na Polônia e radicado em Israel. Autor do Sulam, um comentário em “escada” (camadas) sobre o Zohar, e do Talmud Eser Sefirot – obra que se tornou o principal livro-texto do estudo cabalístico moderno

Ashlag sistematizou muitos ensinamentos de Luria e Vital, buscando tornar o estudo da Cabala amplamente acessível. Ele enfatizava interpretações profundas (incluindo uso de gematria) e defendia a divulgação da sabedoria cabalística às massas

Segundo ele, a sabedoria cabalística não seria retida em círculos fechados; pelo contrário, seus discípulos atuais trabalham para difundir a Cabala entre o povo

Conceito de PARDES na Cabala

Pardes (hebraico פַּרְדֵּס, “pomar”) designa uma abordagem de interpretação bíblica em quatro níveis

Os quatro níveis são: Peshat (sentido simples/literal), Remez (alusão ou indireto), Derash (explicação homilética/haggádica) e Sod (sentido secreto ou místico)

Esse método multicamadas permite captar significados ocultos da Torá sem restringi-la ao sentido literal

Em termos metafóricos, o Pardes funciona como um pomar de onde brota a Árvore da Vida da tradição judaica: cada fruto (nível de interpretação) nutre a Torá viva e flexível. Em outras palavras, graças ao Pardes a Torá pode ser entendida de maneiras renovadas em diferentes épocas

Ao reconhecer o Pardes, admite-se que a Escritura não está fixa em um único sentido, mas “se molda” pelo tempo, frutificando novas visões espirituais (tal como um pomar fértil alimenta continuamente a vida)

Gematria e exemplos

Gematria é a técnica cabalística de atribuir valor numérico às letras hebraicas para descobrir relações secretas entre palavras. Por exemplo, a palavra משיח (Moshiach, “Messias”) soma 358, assim como נחש (Nachash, “serpente”)

Isso sugere um vínculo simbólico: o exílio causado pela serpente é “resolvido” pelo Messias, como lados opostos de uma mesma moeda

Outro exemplo citado foi עמלק (Amalek), cujo valor é 240. Em gematria, esse mesmo 240 corresponde a סָפֵק (safek, “dúvida” ou incerteza)

 Na tradição, Amalek personifica o impulso da dúvida irracional, e essa equivalência numérica realça essa associação. Esses cálculos exemplificam como a gematria é usada para encontrar camadas simbólicas em termos aparentemente distintos

Metáfora final

O Rabino usou a bela imagem do Pardes como um pomar que sustenta a Árvore da Vida da Cabala. Isso ilustra que o Judaísmo “vive” enquanto existirem múltiplas formas de interpretar a Torá. Graças ao Pardes, o texto sagrado permanece vivo e relevante em todas as épocas: não está fixo a uma leitura única, mas continua frutificando ideias novas e profundas

A Torá torna-se, assim, uma “Torá viva”, adaptando-se ao tempo e às necessidades espirituais de cada geração por meio desse pomar de significados interpretativos

AULA 3: LEVINAS, TIKKUN OLAM E FUNDAMENTOS DA CABALA


1. Emmanuel Levinas e a Ética como Filosofia Primeira

Levinas representa uma ponte singular entre a filosofia continental e o pensamento judaico. Sua experiência traumática durante o Holocausto levou-o a desenvolver uma filosofia onde a ética precede a ontologia. Para ele, o rosto do Outro nos interpela com um imperativo anterior a qualquer reflexão consciente: "Não matarás". Esta responsabilidade infinita e assimétrica pelo Outro ecoa profundamente o conceito cabalístico de Tikkun Olam, onde cada encontro humano é uma oportunidade de reparação cósmica. Levinas via na tradição judaica não um conjunto de dogmas, mas uma escola de responsabilidade, onde o estudo talmúdico e a prática ética são faces da mesma moeda.


2. Tikkun e Tikkun Olam: Reparação Cósmica e Prática

Na Cabala lurianica, Tikkun não é apenas um conceito abstrato, mas um processo dinâmico que envolve toda a criação. Após o Tzimtzum (contração divina) e a Shevirat HaKelim (quebra dos vasos), centelhas divinas (nitzotzot) ficaram espalhadas pelo mundo material. Cada ato ético, cada mitzvah cumprida com kavanah (intenção correta), ajuda a reunir essas centelhas e restaurar a unidade original. Tikkun Olam expande esta ideia para a esfera social - justiça, cuidado ambiental e compaixão tornam-se instrumentos de reparação cósmica.


3. Os 613 Mandamentos e Maimônides: A Estrutura da Prática

Maimônides, em seu Mishné Torá, não apenas catalogou os 613 mandamentos, mas os organizou como um sistema integral de santificação da vida. Na perspectiva cabalística, cada mandamento corresponde a um aspecto da realidade divina e humana. Os 248 positivos conectam-se com os órgãos do corpo, os 365 negativos com os dias do ano, formando um mapa completo para a transformação pessoal e cósmica. A prática haláchica torna-se assim um exercício de alinhamento com a estrutura profunda da realidade.


4. Moshe Cordovero: Sistematização da Cabala

Cordovero, em seu Pardes Rimonim, realizou a primeira grande sistematização da Cabala, integrando diferentes tradições num sistema coerente. Sua grande contribuição foi entender as Sefirot não como entidades separadas, mas como diferentes aspectos do Ein Sof manifestando-se através de canais dinâmicos. Sua obra estabeleceu as bases para o desenvolvimento posterior da Cabala lurianica, equilibrando profundidade teórica com aplicação prática.


5. Isaac Luria: A Revolução Cosmológica

Luria propôs uma cosmogonia radical que explica a origem do mal e o propósito da existência humana. O Tzimtzum não é um afastamento de Deus, mas um ato de amor que cria espaço para a alteridade. A Shevirat HaKelim não é um acidente, mas parte necessária de um processo que permite a existência de um mundo autônomo. O Tikkun torna-se assim a vocação humana: somos parceiros de Deus na restauração da unidade quebrada.


6. Spinoza e Yossef Caro: Duas Visões de Deus

Spinoza, embora excomungado, desenvolveu uma visão panteísta que ressoa com certas correntes cabalísticas da imanência divina. Yossef Caro, por outro lado, representa a integração perfeita entre lei e mística. Seu Shulchan Aruch tornou-se o código legal padrão, enquanto suas experiências com o Maguid mostram como a prática haláchica pode ser sustentada por experiências espirituais profundas.


7. Lamego e Abraham ben Eliezer: A Cabala Portuguesa

A comunidade de Lamego representa um capítulo importante na diáspora cabalística. Abraham ben Eliezer, escrevendo em português, conectou a tradição cabalística com as expectativas messiânicas do século XVI, mostrando como Portugal era visto como um potencial cenário para os eventos redentores. Sua obra ilustra a natureza global e multicultural do desenvolvimento da Cabala.


AULA 4: IDOLATRIA, MESSIANISMO E A ALMA IMORAL

1. Idolatria: Para Além dos Ídolos de Madeira

A Cabala expande radicalmente o conceito de idolatria. Não se trata apenas de adorar imagens, mas de qualquer absolutização do relativo. Isso inclui o materialismo, o nacionalismo extremado, e até a própria religiosidade quando esta se torna fim em si mesma. O grande perigo é confundir os vasos (Sefirot, instituições, conceitos) com a luz que contêm. A verdadeira prática espiritual requer constante vigilância contra esta tendência idolátrica.


2. A Alma Imoral: A Transgressão Ética

Nilton Bonder, em "A Alma Imoral", propõe que em certas circunstências a transgressão pode ser um imperativo ético. Assim como Deus "transgrediu" sua própria plenitude no Tzimtzum para criar espaço para o outro, o ser humano é chamado a transcender limites estabelecidos quando estes impedem a realização de valores superiores. Esta "transgressão sagrada" não é licença para a anarquia, mas reconhecimento de que a lei existe para servir à vida, e não vice-versa.


3. Messianismo: Esperança e Perigo

O ideal messiânico na Cabala é complexo e historicamente problemático. Por um lado, representa a esperança na transformação radical do mundo; por outro, já gerou movimentos catastróficos quando interpretado de forma literalista e apocalíptica. O verdadeiro messianismo cabalístico é um processo gradual de Tikkun, não um evento catastrófico. Requer discernimento para evitar tanto o fanatismo quanto o desespero.


4. Macrocosmo e Microcosmo: O Humano como Espelho do Divino

A Cabala desenvolve uma sofisticada teoria das correspondências entre a estrutura divina (macrocosmo) e a psique humana (microcosmo). As dez Sefirot não são apenas emanações divinas, mas também arquétipos das dinâmicas psíquicas humanas. O trabalho espiritual envolve reconhecer estas correspondências e alinhar os microcosmos pessoais com a harmonia do macrocosmos divino.


5. Cabala como Linguagem das Causas

A Cabala não é apenas mística especulativa, mas uma linguagem para decifrar as causas profundas da realidade. Enquanto as ciências estudam os efeitos (o "como"), a Cabala investiga as causas (o "porquê") últimos. Seu interesse prático está em oferecer um mapa para a transformação pessoal e social, mostrando como as raízes espirituais determinam os frutos materiais.


6. Tzimtzum Humano: A Contração do Ego

Assim como Deus se contraiu para criar espaço para o mundo, nós somos chamados a contrair nosso ego para criar espaço para o outro. Esta prática de "Tzimtzum relacional" é a base da ética cabalística: fazer espaço para a alteridade, escutar antes de falar, dar antes de receber. É a imitação divina (Imitatio Dei) em nível ético.


7. Perdão e Reparação

O perdão na Cabala não é simples esquecimento, mas um processo ativo de Tikkun. Envolve reconhecer a quebra, compreender suas causas, e trabalhar ativamente pela reparação. É um micro-Tikkun que reflete o macro-Tikkun cósmico, lembrando que cada relação interpessoal é um espelho das dinâmicas cósmicas.

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